Nas Águas de Anchieta

Detalhe do quadro pintado por Fernando Madalena, 1991

Comemorados em 2015, os 450 anos de fundação da cidade do Rio de Janeiro provocaram o resgate histórico dos acontecimentos em torno do nascimento daquela que viria a ser conhecida mundialmente como a Cidade Maravilhosa, abençoada por Deus, por sua beleza e pelo modo de ser de seu povo.

Os livros de História nos contam das invasões francesas à então colônia de Portugal, cujo objetivo era a exploração comercial das riquezas aqui existentes, e, secundariamente, difundir a fé protestante adotada por aqueles que aqui estiveram. A pretensão era constituir em terras brasileiras a França Antártica, pedaço avançado daquele país que pouca tradição tinha em navegações, se comprado a Portugal e Espanha.

Os capitães franceses aqui chegaram quase sem nenhuma resistência, instalando-se em uma ilha na entrada da Baía de Guanabara que ficou conhecida pelo nome do comandante da esquadra, Ilha de Villegagnon. Lá, fundaram o Forte de Coligny e estabeleceram uma intensa atividade extrativista e comercial com os índios tamoios, habitantes primeiros do local.

Estamos nos anos de 1560, quando José de Anchieta, já residente no Brasil há 7 anos, era o epistológrafo da Província, responsável por dar conta à Cúria Geral dos Jesuítas em Roma e, por vezes, à Coroa, do que aqui acontecia. Foi neste ano que Mem de Sá, então Governador Geral, em uma investida que culminou com a derrocada de Villegagnon e sua fortaleza, realiza o que ficou conhecido como a 1ª expulsão dos franceses do Brasil. Anchieta, que tudo acompanhou junto ao Pe. Manoel da Nóbrega, então Provincial, relatou a batalha no poema épico De gestis Mendi de Saa, ou Da saga de Mem de Sá, que ganhou edição europeia em 1563, vindo a ser o único texto de Anchieta publicado enquanto era vivo. Sobre o Governador Geral, o santo irá dizer no seu poema:

Muito esperada, quando livre dos perigos
do mar chegou à baía (…) a tropa que trazia o ingente
herói, do meio das ondas de Thétis, salvo;
o herói magnânimo Mem, a quem dos avós
o nobre sangue, e ilustre de longa linhagem,
dá o sobrenome Sá; a quem muitos
anos as cãs mais vastas decoram o queixo;
a quem muito poder, no rosto, leda face
de peso senil ornada, e olho ágil, a quem
sumo vigor do corpo, e forças juvenis (…)
a verdadeira piedade de Deus, e a insigne,
não turbada fé, pelo santo amor de Cristo,
quente no peito, aceso na Chama celeste
zelo em tirar do Estige as mentes brasileiras.

Mas, a semente francesa teimava em nascer. Embora Mem de Sá tivesse arruinado Coligny, não plantou raízes de uma nova cidade e, em pouco tempo, os franceses que sobreviveram e aqui ficaram, mais os que retornaram rapidamente se articularam com os tamoios e, em pouco tempo, a rota comercial francesa foi reestabelecida. Era urgente fundar aqui uma cidade portuguesa.

Foi durante esse período conturbado de negociações que acontece a Confederação dos Tamoios, revolta contra a escravidão indígena e culminou com a prisão de Anchieta feito refém dos índios na aldeia de Iperoig, enquanto Nóbrega negociava a paz com índios tamoios e tupinambás e os bandeirantes paulistas. Só depois de feita a conciliação, Estácio de Sá, sobrinho de Mem, pode partir para a tomada definitiva do Rio de Janeiro.

A chegada ao Rio, ainda nas águas da baía de Guanabara, é assim relatada por Anchieta, que seguia com Estácio em sua embarcação:

Partimos, donde chegamos ao Rio à sexta-feira santa e entramos pela barra bem à meia-noite com grande escuridão e tormenta de vento (…) não vimos os navios dos nossos, e mandando logo à terra a uma ilhota que foi dos franceses, achavam todas as casas que os nossos pousavam queimados e alguns corpos de escravos que haviam morrido de sua doença desenterrados (…) mas ali havíamos de aguardar o que Nosso Senhor nos enviasse e assim enviou que foi sua costumada e fraterna misericórdia (…)
Carta ao Pe Geral, Diogo Lainez, de 08 de janeiro de 1565

Contudo, esta ainda não será a investida definitiva. Aportados na ilha Villegagnon, abrigados nas ruínas do forte destruído, os portugueses reuniram forças para, na madrugada de 1º de março daquele 1565, chegar à terra firme e fundar definitivamente a a cidade aos pés do Morro Cara de Cão. É assim que Anchieta relata a fundação:

Logo ao seguinte dia, que foi o último de Fevereiro, ou primeiro de Março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para a cerca, sem querer saber dos tamoios nem dos franceses, mas como quem entrava em sua terra, se foi logo o capitão-mor [Estácio de Sá] a dormir em terra, e dando ânimo aos outros para fazer o mesmo (…)
(…) e se vão firmando mais na vontade que traziam de levar aquela obra ao cabo, vendo-se tão particularmente favorecidos da Divina Providência. (Carta ao Pe. Diogo Mirão, da Bahia, 09 de junho de 1565)

Os olhos da fé que testemunharam a batalha sangrenta, no embaçar da luta, com Estácio ferido mortalmente, evocaram o guerreiro Sebastião, que tempos depois, através das alegorias do auto anchietano, teria aparecido ele mesmo em socorro dos portugueses, fazendo-os vencedores. Daí a incorporação de seu nome ao da cidade, dedicada definitivamente à sua proteção: São Sebastião do Rio de Janeiro.

Anchieta ainda viveria e voltaria muitas vezes ao Rio. Aqui ajudou no Colégio dos Jesuítas, instalado no Morro do Castelo e fundou obras importantes como a Santa Casa de Misericórdia. Mas, é no escondido do texto da mesma carta que escreveu ao Pe Diogo Mirão, da Bahia, que encontramos talvez a primeira prece sobre a cidade:

Esta é a breve informação do Rio de Janeiro; resta pedir a Vossa Reverendíssima nos encomende e faça encomendar muito a Nosso Senhor, e tenha particular memória dos que residem e adiante residirão naquela nova povoação, oferecidos a tantos perigos, da qual se espera haver de nascer muito fruto para glória do Senhor e salvação das almas.

Peçamos, portanto, a intercessão do santo pela cidade que viu nascer e pela qual rezou.

Gilda Maria Rocha de Carvalho
Mestre em Literatura
Instituto Interdisciplinar de Leitura PUC-Rio

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