Café com Arte apresenta Manuscrito Jesuítico Raro que revela medicina praticada no Brasil no Século XVIII

Em um universo com cerca de três milhões de itens, entre livros e outras publicações guardadas na rede de bibliotecas da Fiocruz, um em especial chama atenção a ponto de ser considerado pelos seus guardadores como a obra mais importante. Trata-se de um manuscrito raro, datado do início do século XVIII, que traz em suas 225 páginas receitas médicas para a cura de várias doenças. Intitulado Formulário Médico, o livro não traz o nome do autor, apenas a indicação de ter sido encontrado dentro de um baú na Igreja de São Francisco de Curitiba, em 1703. Ainda assim, ele deixa diversas pistas de que foi escrito pelos jesuítas, principalmente porque as receitas sugerem o uso de elementos da fauna e da flora dos locais onde as missões jesuíticas se instalaram. Muitas delas utilizadas pelos índios brasileiros com os quais eles tiveram contato. A história do livro e seu processo de restauro serão abordados no próximo Café com Arte, no sábado, 1 de julho, às 9h30m, com o restaurador Marcelo Silva Lima.

– Este livro apresenta aspectos representativos da medicina empírica do século XVIII e, em sua análise, podem ser percebidos o acúmulo de conhecimento, o registro das observações e experimentações na prática da medicina e, por fim, as relações entre as diferentes culturas nos aspectos de cura do corpo. Não podemos esquecer que, no período mencionado, o sobrenatural, o místico e o religioso ainda eram as formas para explicar as origens das doenças – ressalta Lima.

Atualmente, Marcelo Lima coordena a Seção de Preservação do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz e, durante o mestrado em Bens Culturais e Projetos Sociais na FGV, escolheu o Formulário Médico como objeto de estudo. Na pesquisa, Lima observou que o livro não foi todo escrito de uma única vez, mas era um livro de trabalho, no qual as receitas provavelmente foram sendo acrescentadas ao longo do tempo. Para o pesquisador, o Formulário Médico mostra fatos pitorescos e interessantes da medicina praticada na época e, além de informar sobre os medicamentos, também ajuda a compreender as doenças que já existiam no Brasil e outras curiosidades históricas.

Nas duzentas e vinte e cinco páginas manuscritas do Formulário Médico, a caligrafia constante e elaborada é a primeira coisa a chamar atenção. Mas a beleza dos traços não facilita a compreensão das palavras redigidas com o português usado no Brasil colonial. Leva tempo até que os olhos se acostumem à grafia incomum de palavras corriqueiras como “assúcar” e “huns”. E quando a leitura começa a fluir, surgem receitas inusitadas que indicam desde compressas de claras de ovo fresco com “asafrão” para dor de cabeça até “gargarejos com caldo de lagartixa” para dores de garganta. Uma das que mais chamou a atenção do pesquisador foi a Triaga Brasilica, um tipo de antídoto composto de várias plantas, raízes e ervas brasileiras que “curava” as mais diferentes doenças.

– Na literatura especializada sobre os jesuítas, Serafim Leite cita uma receita de Triaga Brasilica, que era a única conhecida até então, num livro comprovadamente escrito pelos jesuítas que está nos arquivos da Companhia de Jesus em Roma. Lá, nós temos uma receita exatamente igual a que está aqui. Então isso prova o compartilhamento de informação entre os jesuítas, já que o livro daqui é mais antigo que o de lá – esclarece Lima.

Algumas receitas contém descrições minuciosas sobre o preparo das ervas, a forma de manipulá-las, a necessidade de utilizá-las frias ou quentes, etc. Outras não chegam a ser exatamente receitas, mas apenas anotações de pequenos cânticos de cura. Para Lima, ao pesquisar as ervas, descobrir formas adequadas de prepará-las, extrair óleos essenciais, etc, e mesmo a própria mistura entre as práticas de medicina tradicionais e os conhecimentos indígenas, os jesuítas teriam atuado não apenas como médicos, mas como cientistas, descobrindo e catalogando fórmulas que podem estar presentes na farmacologia até hoje.

– Os jesuítas foram os primeiros a descrever a riqueza da flora e da fauna do Brasil Colonial. Com a contribuição dos índios, e a partir da relação de respeito que desenvolveram, elaboraram uma medicina rica e inovadora. Vieram com a missão de catequizar e, a partir do caos encontrado, se viram obrigados a sarar o corpo para curar as almas. E o resultado desse delicado processo de formação social, pode ser verificado através de seus manuscritos médicos, considerados verdadeiros arquivos informacionais.

Os detalhes que podem ser extraídos do livro serão apresentados durante o Café com Arte. Por ser uma obra tão rica, o encontro deve chamar a atenção de estudantes e profissionais das áreas de medicina, biologia, história, farmácia, artes, letras, museologia, arquivologia, antropologia, preservação e restauro, entre outras. O encontro começa com um café da manhã e, logo em seguida, a palestra sobre o livro, terminando com uma pequena exposição de práticas de restauro. O evento será na sede do Centro Loyola, na Estrada da Gávea, 1. O investimento é de R$ 20 e inclui o café da manhã.

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Reportagem:
Alessandra Cruz
Fotos: Theo Carvalho

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