Livro do Apocalipse traz mensagem de esperança para cristãos

Nova-Jerusalem

Com muitos símbolos e ilustrações, o livro do Apocalipse é considerado de difícil compreensão por muitas pessoas. Para o diretor do Departamento de Teologia da PUC-Rio, padre Leonardo Agostini, é preciso familiarizar-se com a linguagem e os recursos utilizados antes da leitura. Segundo ele, a mensagem no Apocalipse é a esperança e não o medo. Este será o foco do novo curso promovido pelo Centro Loyola, que o professor Agostini irá ministrar nos dias 10, 17 e 24 de agosto.

Qual o significado da palavra apocalipse? E qual seria a mensagem principal que o livro passa?
Padre Leonardo Agostini:
Apocalipse é um termo grego que significa revelação. É o ato pelo qual se retira o véu e, neste sentido, o livro do apocalipse significa tirar o véu da história, aquilo que acontece na história, mas as pessoas não conseguem perceber porque são determinadas realidades que se encontram veladas. Quem revela o sentido último e verdadeiro da história é Jesus Cristo. Ele é, por excelência, a revelação plena de Deus. Ele é o Apocalipse de Deus.

Quando o livro foi escrito? Qual era o contexto da época?
Padre Agostini:
Segundo estudiosos, ele surge no final do primeiro século. Alguns prolongam essa data até a metade do segundo século depois de Cristo, mas a grande maioria continua afirmando que o livro do Apocalipse surge no final do primeiro século. Também admitem que o livro passou por fases até chegar à sua forma final e definitiva. Essas fases são colocadas a partir de realidades que podemos perceber com a leitura atenta do livro, visto que ele trata da perseguição dos seguidores de Jesus Cristo. No início do cristianismo, os discípulos foram alvo de perseguição tanto no meio judaico, quanto no meio pagão. Então o contexto histórico do livro do Apocalipse retrata um momento difícil para a Igreja, difícil para os seguidores de Jesus Cristo. E há um detalhe bem particular que é o seguinte: o livro do Apocalipse vem a ser uma resposta a muitos cristãos que aguardavam de forma eminente a segunda volta de Cristo. Nós precisamos lembrar que os evangelhos terminam e o livro do Ato dos Apóstolos começa com Jesus Cristo que sobe aos céus, mas também existe uma promessa que ele voltaria para julgar os vivos e os mortos. Essa esperança levou muitos cristãos a aguardarem o retorno de Jesus quase que, diríamos, imediato, mas com o passar do tempo foram percebendo que não. O próprio apóstolo Paulo acreditava que a parúsia, essa segunda vinda de Cristo, ainda o pegaria em vida. Pouco tempo depois, ele compreende que a historia estava sendo conduzida em outra direção. Ele continua afirmando a fé na segunda volta de Cristo, mas quanto ao tempo e à hora não cabe aos homens. Essa revelação não foi feita. O Senhor nos deixou na expectativa e disse que, quando Ele voltasse, voltaria como um ladrão, uma metáfora para explicar que Ele voltaria num momento inesperado, de improviso. Por isso exigiu dos seus discípulos a prontidão, a oração. E o livro do Apocalipse vem ser um alento para os cristãos que viviam numa situação histórica difícil de perseguição, quer da parte dos judeus, quer da parte dos pagãos. O livro do Apocalipse tem esse grande objetivo: não incutir medo nas pessoas.

Sobre essa questão do medo, muitos vêem o conteúdo do livro associado ao fim do mundo e têm medo. Na opinião do senhor, por que isso acontece?
Padre Agostini:
Talvez aqui esteja o grande problema em relação à leitura do livro do Apocalipse. Muitos parecem que vão se defrontar com as últimas realidades de forma catastrófica e têm medo de ler o livro do Apocalipse. Mas o livro não é definido como um livro para incutir medo. Acima de tudo é um livro que quer alimentar os seguidores de Jesus na esperança, fortificar a fé e dizer que o que conta nessa vida é praticar o amor que Jesus mandou praticar.

O livro do Apocalipse tem muitos símbolos, ilustrações e é considerado por muitas pessoas como um livro de difícil compreensão. Pode-se dizer que o livro esconde mais do que revela? É mesmo um livro complicado?
Padre Agostini:
Este jogo velar e revelar se faz presente no livro do apocalipse devido exatamente às metáforas, imagens que são utilizadas. Os símbolos, números e cores usados no livro são muito ricos. Então é preciso que o leitor primeiro se dê conta da linguagem que foi utilizada. É preciso se familiarizar com a linguagem e com o recurso utilizado, as metáforas, os símbolos, porque, certamente, na época em que o livro foi escrito, tanto quem escreveu quanto para quem o livro foi escrito, o código usado era conhecido de ambos. Então um curso sobre o Apocalipse nos nossos dias deve, na medida do possível, ajudar a conhecer essa linguagem e se apropriar dos recursos literários que foram utilizados no livro. Desta forma realizamos dois movimentos: aproximar uma literatura antiga ao leitor moderno e capacitar o leitor moderno a ler um livro antigo.

Um grande número de seitas estão emergindo por causa das pessoas que declaram que as profecias do Apocalipse estão sendo cumpridas agora. O que o senhor acha disso?
Padre Agostini:
Essa tendência milenarista não é nova. O ser humano tem sempre um pezinho atrás em relação ao dia de amanhã. Nenhum de nós sabe o que vai ser o dia de amanhã, mas o livro do Apocalipse serve para que, se a gente for pensar no futuro, devemos pensar no futuro hoje. De que maneira? Preparando o futuro com ações de bem, de justiça e de verdade. Muitas pessoas tomam o texto ao pé da letra, sem levar em conta os critérios que enunciei antes. Se esses elementos são negligenciados e o texto é lido simplesmente no sentido literal, acaba sendo muito fácil fazer com o que o livro do Apocalipse diga aquilo que nunca pretendeu dizer. A aplicação que se faz do livro será ou não correta na medida em que os leitores atuais se aproximarem do livro e dos seus textos com propriedade, com conhecimento. Este gênero literário do apocalipse durou muito tempo, ele praticamente surge em torno do terceiro século antes de Cristo e perdura até o quarto século depois de Cristo. Então o livro Apocalipse que nós temos na Bíblia não é o único do gênero. Até mesmo dentro da Bíblia existem outros textos que também são classificados como apocalípticos. Porém nós temos no Novo Testamento o livro que pertence praticamente a todo esse gênero apocalíptico. E é muito ruim quando um texto bíblico, em particular um texto do livro do Apocalipse, é tomado de forma literal. Diante de anúncios de fim de mundo, de catástrofes, de situações desastrosas, sejam elas de natureza bélica, bacteriana, desastres ecológicos, é muito fácil pra alguém dizer assim: “É o apocalipse que está acontecendo”.

E o que o livro quer mostrar exatamente?
Padre Agostini:
Muito no livro do Apocalipse deriva exatamente da observação de certos cataclismas e da própria condução da história na época em que foi escrita. O autor se apropriou dessas realidades para transmitir uma mensagem teológica, uma mensagem de esperança, mas acima de tudo um chamado à conversão. Se tem um ponto forte no livro do Apocalipse é o chamado à conversão. Por quê? Porque nós devemos compreender que a nossa história deve ser vista como um tempo da graça de Deus na nossa vida, uma oportunidade que Deus dá a cada um de nós para procurarmos organizar aquilo para o qual fomos criados: imagem e semelhança de Deus. O que deve orientar a vida das pessoas é a fé, a esperança e a prática da caridade. Um dia o nosso planeta pode deixar de existir, isso é uma hipótese cientifica. Assim como o planeta tem sua história evolutiva que eles colocam ai em torno de 6 bilhões e meio de anos, nada impede que o planeta possa ser destruído. Os próprios cientistas afirmam que um dia o sol vai esfriar, mas não é isso que o livro do Apocalipse está querendo dizer. Ele quer sim transmitir um senso de justiça muito grande. Na verdade o apocalipse diz que tudo vai acabar em transformação, haverá um novo céu e uma nova terra, onde a experiência da dor, do sofrimento e da morte foi superada. Por quê? Porque agora sim, Deus é tudo em todos.

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Reportagem: Patricia Pougy

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