Artigo: Qual é a família ideal?

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Estamos tão acostumados ou acostumadas aos famosos comercias de televisão, que mostram lindos casais felizes com seus filhos comportados, que não nos perguntamos sobre qual é a família ideal? É claro que a Igreja tem uma fala sobre esse assunto. Existe uma imagem de família na sociedade, nos meios de comunicação e também há uma ideia de como Deus pensa a família, e esse pensamento é interpretado pela Igreja. Não vou falar sobre o que a Igreja tem a dizer sobre isso, porque certamente todos nós já ouvimos inúmeras homilias, sermões, palestras e aulas sobre o assunto. Além da fala da Igreja que nos faz pensar sobre as nossas famílias, a propaganda nos bombardeia o tempo todo com uma ideia de família. Geralmente as famílias mostradas em comercias de televisão ou nas revistas e outros meios é quase sempre branca, feliz e sempre é composta por um casal e seus filhos sorridentes. Mas o que isso tem de errado? A resposta poderia ser ‘não há nada de errado nisso’, porém pode existir alguma coisa errada sim. Então o que é?

Não somos brancos. A população brasileira é majoritariamente formada por pessoas que têm uma ascendência negra ou indígena, sendo assim estamos todos juntos e misturados. Esse tipo de propaganda não nos representa. Além disso, nem sempre nas famílias brasileiras há a presença de um chefe de família. Mais de 35% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Isso significa que toda vez que vemos qualquer tipo de propaganda ou fala sobre a família nos sentimos culpadas porque nossas famílias não correspondem a um ideal, a um padrão. Não somos essas mulheres brancas dos comercias e muito menos magras e lindas. Somos mulheres brasileiras, temos o nosso padrão de beleza e só podemos viver na família que nós temos. Não vivemos em belas casas, com suas caríssimas cozinhas planejadas, e nem temos carrões ou relógios caros. Os meios de comunicação e até mesmo o discurso religioso de um modo geral não conseguem perceber a realidade de muitas famílias brasileiras e essa atitude, ao invés de libertar, gera culpa e um sentimento de inadequação.

Seria possível, então, vivermos felizes na nossa realidade familiar? O que muda na nossa vida ter a consciência de que não somos a família do comercial de TV? Lidar com a realidade de que nossos filhos muitas vezes não estão felizes e são adolescentes rebeldes e mal humorados. Somos normais. Somos humanos. Somos humanas. Como pessoas, criadas por Deus, somos limitados e finitos, não temos todas as respostas, não podemos corresponder a todos os ideais, somos quem somos e temos um contexto de vida. Sendo assim, só podemos ser feliz sendo quem nós somos, vivendo a nossa própria realidade, tentando encontrar Deus e um pouco de felicidade dentro de nossas limitações.

Deus se manifesta na realidade onde vivemos. Ele é um Deus bom e misericordioso e, por isso, não elege padrões que quase sempre são inatingíveis para alguns de nós. Ele nos aceita do jeito que nós somos, com a família que temos, com os nossos erros, dificuldades e limitações. Esse é o resultado da sua maravilhosa Graça. Sabedores disso, somos livres para viver a nossa vida em Paz. Não precisamos nos sentir culpados e culpadas. Deus nos aceita e aceita a nossa família do jeitinho que ela é. Deus não nos rejeita, ele nos acolhe e vem dele a força e a bondade para viver a beleza da nossa vida de todo dia. Uma vida que nem sempre tem os sorrisos dos comerciais, mas tem a beleza de ser verdadeira e saudável com suas dores e alegrias. Por isso, podemos viver a nossa vida sem medos ou complexos de inferioridade. Deus no ama e nos aceita, e isso basta.

Silvana Venâncio é Doutora em Teologia pela PUC-Rio, leciona nos cursos do Centro Loyola e também é pastora anglicana.

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