A mulher virtuosa: Nossa Senhora nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio

Passando pelo caminho das Sagradas Escrituras, vamos encontrar no Livro dos Provérbios, no Antigo Testamento, uma imagem que traz para nós a figura de uma mulher virtuosa. No texto, percebe-se a bondade e as virtudes de Maria, mãe de Jesus e nossa. Vejamos o texto:

Quem encontrará a mulher de valor? Vale muito mais do que pérolas. Nela confia o seu marido, e a ele não faltam riquezas. Traz-lhe a felicidade, não a desgraça, todos os dias de sua vida. Adquire a lã e o linho, e trabalha com mãos hábeis. É como a nave mercante que importa de longe o grão. Noite ainda, se levanta, para alimentar os criados. E dá ordens às criadas. Examina um terreno e compra, com o que ganha com as mãos planta uma vinha. Cinge a cintura com firmeza e emprega a força dos braços. Sabe que os negócios vão bem e de noite sua lâmpada não se apaga. Lança mão ao fuso, e os dedos pegam a roca. Estende a mão ao pobre e ajuda o indigente. Se neva, não teme pela casa, porque todos os criados vestem roupas forradas. Tece roupas para o seu uso, e veste-se de linho e púrpura. Na praça o seu marido é respeitado, quando está entre os anciãos da cidade. Tece panos para vender, e negocia cinturões. Está vestida de força e dignidade, e sorri diante de futuro, e sua língua ensina com bondade. Vigia o comportamento dos criados, e não come pão no ócio. Seus filhos levantam-se para saudá-la, seu marido canta-lhe louvores: “Muitas mulheres ajuntaram riquezas, tu, porém ultrapassa a todas.” Enganosa é a graça, fugaz a formosura! A mulher que teme Iahweh merece louvor! Dai-lhe parte do fruto de suas mãos, e nas portas louvem-na suas obras. (Provérbios 31, 10-31)

Maria é essa mulher forte que infunde em nós coragem e vigor espiritual em todos os momentos da vida.

Maria tem um papel especial na vida de Santo Inácio de Loyola. Nos Exercícios Espirituais, experimentamos o modo de ser de Inácio e sua aproximação com Maria. Embora forte de personalidade, Inácio mostra momentos de ternura e docilidade na alma. Podemos perceber nos textos dos Exercícios Espirituais traços da vida dele formando uma unidade. Maria surge sempre como medianeira nos pontos críticos da vida, como aquela mãe atenciosa a seus filhos.

Na vida de Santo Inácio, três momentos são nitidamente marianos, entre outros. O primeiro se dá no início da conversão, quando ele decide depor suas armas aos pés da virgem no Mosteiro de Nossa Senhora de Montserrat, onde passa a noite inteira em Vigília. Ali vem a decisão de assumir um novo caminho na vida, sob as bênçãos da mãe de Deus.

O segundo momento nos vem das meditações da Primeira Semana dos Exercícios Espirituais, onde se deve pedir a graça, na intercessão de Maria, para alcançar:

a) Os conhecimentos internos dos pecados;
b) A percepção das desordens ocasionadas em mim e a força para corrigi-las;
c) O conhecimento das tentações mundanas e delas me afastar.
Conclui-se com uma Ave Maria…

Finalmente, o terceiro momento vem basicamente ao final dos Exercícios Espirituais, nas aparições do Cristo Ressuscitado. Embora não seja relatado nos Evangelhos, ele nos apresenta a primeira aparição à sua mãe, Nossa Senhora. Fato esse que vem da tradição da Igreja e é mencionado na obra Flos Sanctorum e nos textos de Ludolfo de Saxônia, livros importantes para Santo Inácio no seu processo de conversão.

Como se sabe, o tempo da primeira semana dos Exercícios Espirituais gira em torno de três realidades coligadas entre si – o pecado, a morte, o inferno – onde o exercitante percebe toda a força do mal. É aí que surge Maria, aquela mulher virtuosa e forte, que como mãe fortalece e revigora a fé e a coragem de todos os seus filhos e filhas.

Texto: Padre José Maria Fernandes, SJ, é Diretor do Centro Loyola de Fé e Cultura PUC-Rio.

Imagem: Detalhe da Pintura Sagrada Família e Santo Inácio de Loyola, de Sebastiano Ricci.

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