A Espiritualidade traduzida pelos Biomas Brasileiros

Há 45 anos, a Assembleia Geral das Nações Unidas instituiu 5 de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente. Desde então, além da ONU, outras instituições têm buscado refletir e conscientizar a população sobre questões ambientais do planeta, entre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, que trouxe o tema da ecologia para sete campanhas da Fraternidade, desde 1979. A mais recente é a campanha deste ano, que partiu do lema Cultivar e Guardar a Criação, para falar sobre a preservação dos Biomas Brasileiros.

– Imagine a Campanha da Fraternidade de 1979, com o lema Preserve o Direito de Todos. A sociedade brasileira tinha pouquíssimos movimentos ecológicos naquela época, até internacionalmente isso não tinha grande força. E a Igreja foi tanto pioneira quanto profética, tanto que mais tarde esse tema entrou na pauta da sociedade. Hoje, a visão sócio-ambiental integradora está dentro do Espírito da Encíclica Laudato Sii, do Papa Francisco – explicou o padre Josafá Siqueira, SJ.

Biólogo e Reitor da PUC-Rio, padre Josafá apresentou recentemente, em um encontro no Centro Loyola, o tema da Campanha de 2017 sob a ótica da Espiritualidade. Em sua fala, ele mostrou o quanto cada um dos seis biomas brasileiros pode trazer de reflexões sobre a nossa própria caminhada de fé. Segundo o padre, o cerrado, por exemplo, traz um contraponto entre a pequenez exterior e a grandeza interior:

– Quando eu olho o cajuzinho do campo, do Cerrado, é uma espécie que não passa de um metro e meio em sua parte aérea e, no entanto, na parte subterrânea, quando cavamos o solo, vamos encontrar pés com até oito metros de profundidade. Então a fortaleza não está na parte externa, está por dentro. Olha que coisa bonita pra gente lembrar. É preciso se fortalecer interiormente. Às vezes naquilo que se apresenta vulnerável e frágil há uma grandeza interior. E a gente tem que ter esse olhar de fé para ver isso – comparou o padre, enfatizando que esse é um ecossistema que sofre muitos impactos, mas resiste e rebrota, mostrando que é possível florescer mesmo na adversidade.

Sobre a Mata Atlântica, padre Josafá destacou a necessidade de proteger e cuidar das vidas mais frágeis, uma vez que esse bioma reúne muitas espécies ameaçadas de extinção. Outro ponto a chamar atenção é a diversidade de plantas e animais com características muito distintas convivendo em um mesmo ambiente. Para ele, essa diversidade ensina que é preciso saber conviver com as diferenças e respeitar o tempo próprio de cada coisa.

Da Amazônia veio o exemplo da diversidade de povos convivendo com a riqueza da fauna e da flora. Neste ponto o reitor recordou as populações ribeirinhas que vivem nas várzeas em regiões de muita estabilidade e que são fortes apesar disso. Ele também destacou a festa do Círio de Nazaré, como expressão cultural e religiosa.

– O Círio é uma festa religiosa muito própria daquele bioma amazônico, segurar com os outros a corda da fé que nos une e nos conduz a Deus. Se a gente quiser crescer espiritualmente não é possível manter a nossa fé enroladinha sobre nós mesmos. Essa corda tem que ser estendida, essa corda tem que segurada pelos outros, todo mundo tem que colocar mão e caminhar juntos.

Na Caatinga, padre Josafá buscou como exemplo o juazeiro que muitas vezes no meio da seca se apresenta verde e forte, como um sinal de esperança para os nordestinos. A árvore se mantém viva por ter raízes muito profundas, que chegam perto do lençol subterrâneo de água.

– O juazeiro faz a gente pensar na nossa vida, quando a gente tem estruturas interiores maiores e mais profundas a gente floresce mesmo diante das desesperanças da sociedade, das descrenças, dos momentos difíceis, porque tem uma bagagem interior para sobreviver diante de tudo isso. Santo Inácio tem essa sabedoria espiritual quando ele diz que nós passamos na vida estados de consolação e desolação. No entanto, quando estamos consolados, alegres, crescendo, devemos fazer reservas, porque vai chegar um dia que vem o sofrimento, a desolação, e aí a gente tem que buscar essa reserva onde? Dentro de nós.

Saber conviver com avanços e recuos foi o ensinamento espiritual que padre Josafá extraiu das características do Pantanal, um bioma que intercala períodos de cheia e seca, em que a água avança e recua, assim como a vida. Segundo o padre, esse bioma também reforça que é preciso equilíbrio e prudência diante de um ambiente de muitas belezas, mas também de muito perigo.

Por fim, nos campos sulinos, o padre ressaltou as grandes barreiras, como o Cânion Itambezinho, enfatizando que nem sempre as barreiras separam apenas, mas pode ser formas de fazer conviver as diferenças. Ele também citou os povos migrantes que vivem nesse bioma e ali lutam com alegria para preservar a sua cultura e finalizou com o exemplo da araucária, que cresce verticalmente em direção ao alto, mas também cresce horizontalmente com seus ramos: “Buscai as coisas do alto, mas ao mesmo tempo neste crescimento a gente não pode esquecer que tem uma dimensão da horizontalidade da vida, ou seja, supõe a convivência com os outros. São os dois grande mandamentos: amar a Deus e amar ao próximo”.

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