6º Domingo da Páscoa
Ano A.
Data de publicação: 10/05/2026
Texto: Pe. Washington Paranhos, SJ
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele (Jo 14,15-21).
Palavra da Salvação.
A MEDIDA DO AMOR SEM MEDIDA
Amem-se como eu os amei. Não quanto, mas como, com o estilo de quem ama primeiro e na gratuidade absoluta.
Se existe um Evangelho de sabor místico, é este. Sua primeira palavra é um “se”: se vocês me amam. Um ponto de partida livre, leve, paciente. Nenhuma ameaça ou chantagem; você pode aderir ou recusar em total liberdade. Mas, “se me amas”, haverá consequências – “impossível amar-te impunemente”, cantava o padre Turoldo: amá-lo é perigoso, paga-se com a moeda da vida.
Neste trecho, Jesus pede explicitamente, pela primeira vez, para ser amado. Até agora, ele havia dito: Amarás a Deus, amarás o teu próximo, amar-vos-eis uns aos outros... agora, ele se acrescenta aos objetivos do amor. Não o reivindica; espera-o. Porque o amor não se impõe, não se finge, não se mendiga.
Nestes sete versículos, por sete vezes Jesus repete as preposições “com, junto a, em”: estarei convosco, virei a vós, em vós, vós em mim, eu em vós. Como ramos unidos à videira mãe, gota d’água na fonte, centelha da sarça, sopro em seu vento. “Pisciculi Domini”, peixinhos do Senhor imersos dentro do seu mar (Tertuliano).
Quem observa os “meus mandamentos”, reivindica Jesus, “os meus”. Não, portanto, as antigas Dez Palavras, mas aqueles gestos que resumem a sua vida, aqueles que, ao vê-los, não se pode errar, pois é realmente Ele: quando lava os pés, parte o pão, prepara o peixe para os seus amigos após uma noite de cansaço, quando vê a dor, para e toca.
Dizer que o “seu” mandamento é o amor não é exato. Muitos amaram, sob todos os céus, em todos os tempos. O “seu” mandamento também não é “ama o teu próximo”, que já está na Lei de Moisés. E nem mesmo “ama o próximo como a ti mesmo”, porque eu não posso ser a escala ou a balança do amor. O mandamento realmente “dele” é: Amem-se como eu os amei. Não quanto, mas como, com o estilo de quem ama primeiro e se doa sem esperar nada em troca. Amar é questão de qualidade, de estilo, de precisão, de encontrar o sabor autêntico.
E há neste Evangelho como que uma dança de roda, um “testacoda” (uma inversão). O primeiro versículo constata: Se me amais, guardareis os meus mandamentos; e o último versículo inverte a frase: Se guardais os meus mandamentos, vós me amais. Parecem contradizer-se: o primeiro dá uma espécie de adiantamento ao amor sobre o fazer; o último transfere este primado ao fazer em relação ao sentir. Trata-se não de contrapor os dois versículos, mas de sobrepô-los, lendo-os juntos: as mãos revelam o coração, mas é o coração que move as mãos.
“Eu vivo e vós vivereis”. Uma vida que será como a minha, de uma qualidade indestrutível, capaz de atravessar a história e a eternidade. Fé viva é passar de um cristianismo de simples conforto para um cristianismo de encantamento: voltarmos todos a amar a Deus como apaixonados, e não como derrotados ou submissos.
Então viveremos. Agora, sim.