Reflexão
Entre guerras visíveis e violências silenciosas:
o apelo profético de Leão XIV por paz, justiça e conversão.
Papa Leão XIV: “O mundo é destruído por um punhado de tiranos, bilhões de dólares para matar e não há recursos para curar e educar”. A força dessa afirmação não reside apenas em sua contundência retórica, mas na densidade profética que desvela as contradições estruturais do mundo contemporâneo. Ao denunciar os “mestres da guerra” – evocando a célebre expressão de Bob Dylan – o Papa expõe uma lógica perversa que sustenta conflitos armados enquanto negligencia sistematicamente as condições básicas para a vida digna.
“Os senhores da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes não basta uma vida inteira para reconstruir.” Com essas palavras, Leão XIV insere sua reflexão em uma tradição moral e teológica que reconhece na guerra não apenas um evento político, mas uma ruptura profunda da ordem da criação. O contraste entre destruição imediata e reconstrução lenta revela o caráter profundamente antievangélico de toda forma de violência organizada.
O cenário de Bamenda, no noroeste dos Camarões, torna-se, assim, um verdadeiro locus theologicus. O complexo da catedral, cercado por grades e rigidamente controlado, reúne igreja e instituições educativas, sinalizando que, mesmo em contextos de guerra, a Igreja permanece como espaço de resistência e promoção da vida. Dentro e fora da igreja, milhares de pessoas escutam em silêncio atento as palavras do Papa: “O mundo é destruído por um punhado de tiranos e é mantido de pé por uma miríade de irmãos e irmãs solidários”. Aqui se delineia uma antropologia da esperança: se o mal parece concentrado e organizado, o bem, embora difuso, é numeroso e persistente.
A visita de Leão XIV ocorreu em meio a um conflito que, desde 2017, já provocou milhares de mortes e centenas de milhares de deslocados, após a proclamação da chamada “República de Ambazônia”. Nesse contexto, a guerra civil não distingue crenças e, paradoxalmente, aproxima comunidades religiosas. O Papa destaca com lucidez: “Em quantos lugares da terra eu gostaria que isso acontecesse!”. A união entre líderes cristãos e muçulmanos em favor da paz revela que a religião, quando fiel à sua essência, torna-se força de reconciliação. Em contraposição, ele adverte com severidade: “Ai daqueles que dobram as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos militares, econômicos e políticos”.
O discurso papal ultrapassa, contudo, o contexto local e assume dimensão universal. Em um mundo atravessado por mais de cinquenta conflitos, Leão XIV denuncia uma verdadeira “subversão da criação”, um mundo “ao avesso”, no qual os recursos são desviados para a morte enquanto a vida permanece desassistida. Sua proposta é clara: é necessário um “retorno em U”, isto é, uma conversão radical que reoriente a história na direção da fraternidade humana. Trata-se de uma categoria profundamente bíblica e teológica, que implica não apenas mudança moral individual, mas transformação estrutural.
Na celebração eucarística realizada em um espaço fortemente vigiado por razões de segurança, o Papa amplia ainda mais sua análise, incluindo problemas como corrupção, pobreza, crise educacional e migração juvenil. Ele denuncia também a exploração externa do continente africano, evidenciando que a guerra não pode ser compreendida isoladamente, mas como parte de um sistema global de dominação. Seu apelo é incisivo: “Este é o momento de mudar, hoje, e não amanhã!”. Tal urgência remete à dimensão escatológica do agir cristão, no qual o tempo presente é sempre kairos, oportunidade de salvação e transformação.
A coragem apostólica, evocada a partir dos Atos dos Apóstolos, torna-se, então, paradigma ético: “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens”. Essa afirmação, longe de justificar qualquer forma de desobediência arbitrária, funda uma consciência crítica capaz de resistir às estruturas de pecado. A fé cristã, nesse sentido, não pode ser reduzida à esfera privada, mas deve assumir seu caráter público, profético e transformador.
A força das palavras de Leão XIV, pronunciadas em meio ao cenário concreto de uma guerra esquecida, não se limita ao contexto africano, mas ressoa como interpelação universal às consciências. Quando o Papa denuncia um mundo sustentado por interesses de poucos e devastado por estruturas de morte, sua mensagem atravessa fronteiras e alcança também realidades onde a guerra não é oficialmente declarada, mas cotidianamente vivida. Há, portanto, uma continuidade inquietante entre os conflitos armados visíveis e aquelas formas difusas de violência que corroem silenciosamente o tecido social de tantas nações, exigindo igual urgência de discernimento, denúncia e compromisso ético.
Nesse horizonte, não é difícil reconhecer que também o Rio de Janeiro vive sob o peso de uma “guerra silenciosa”, marcada pela atuação do tráfico de drogas, das milícias e por uma complexa rede de interesses que frequentemente envolve setores da política institucional. Trata-se de uma violência que não apenas elimina vidas, mas desfigura a dignidade humana, impõe o medo como linguagem cotidiana e naturaliza a morte como parte da paisagem social. Tal realidade confirma, de modo dramático, a denúncia do Papa: recursos abundam para sustentar estruturas de morte, enquanto faltam investimentos consistentes para promover educação, saúde e inclusão social.
Mais grave ainda é perceber que essa engrenagem de violência é, em muitos casos, tolerada ou mesmo favorecida por práticas de corrupção política que fragilizam as instituições e comprometem o bem comum. A crise política vivida no estado do Rio de Janeiro revela um cenário de descrédito e desconfiança, onde escândalos sucessivos parecem já não provocar a indignação necessária. Ao mesmo tempo, a fragmentação religiosa e a ausência de uma voz comum mais incisiva contribuem para a manutenção de um estado de anestesia social. Diferentemente do testemunho apresentado em Bamenda – onde líderes cristãos e muçulmanos se unem pela paz –, aqui ainda se evidencia uma dificuldade concreta de convergência em torno de valores fundamentais.
Nesse contexto, a proximidade de mais um processo eleitoral impõe uma responsabilidade ética ainda maior. As palavras de Leão XIV ecoam como um chamado à consciência crítica e à coragem profética: não é possível compactuar com estruturas que matam, roubam e legislam para si mesmas. A participação política, longe de ser reduzida a um ato formal, deve tornar-se expressão de discernimento moral e compromisso com a verdade. Diante do alarmante rebaixamento ético de parte da classe política brasileira, torna-se urgente recuperar a dimensão da política como serviço ao bem comum. Como recorda o Papa, evocando a tradição apostólica, “é preciso obedecer a Deus antes que aos homens”: trata-se, portanto, de uma convocação à conversão pessoal e social, capaz de romper com a lógica da indiferença e inaugurar caminhos concretos de justiça, paz e responsabilidade coletiva.