Reflexão
Ascensão do Senhor, Solenidade
Ano A.
Naquele tempo, os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. Então Jesus aproximou-se e falou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. Mt 28,16-23
Palavra da Salvação.
OLHOS NOS OLHOS
Não existe fé verdadeira sem dúvidas. Dúvidas que são como os pobres: elas estarão sempre conosco. Mas, se as olhares com coragem, de aparentes inimigas se tornarão defensoras da tua fé. Quem é aquele que sobe ao céu? Aquele Deus que tomou para si a cruz para me oferecer centelhas de ressurreição, que abre frestas nos muros das minhas prisões. Aquele Deus que é um grande especialista em fugas.
Jesus deixa a terra com um balanço de perdas: restaram ao seu lado apenas alguns homens amedrontados e confusos, e poucas mulheres corajosas e fiéis. Juntos, seguiram-no por três anos pelas estradas da Palestina; não entenderam muito, mas o amaram muito. Contudo, foram todos ao monte, lá na Galileia. Todos! Levando os fragmentos de ouro da fé dentro de vasos de argila transbordantes de dúvidas: uma comunidade ferida que sofreu a traição, o abandono e a sorte trágica de Judas, culminada no suicídio.
Mas o mestre não os abandona e, com um de seus gestos mais típicos, aproximou-se e disse-lhes... Jesus não aceita distâncias, ainda não está cansado de explicar. Ainda não está cansado de me esperar na minha lentidão em crer; ele chega mais perto, olhos nos olhos, respiração na respiração.
Não existe fé verdadeira sem dúvidas. Dúvidas que são como os pobres: os teremos sempre conosco. Mas, se as olhares com coragem, de aparentes inimigas se tornarão defensoras da tua fé, protegendo-a do assalto das respostas superficiais e das frases prontas.
Portanto, Ide. Aquele “portanto” é ilógico e belíssimo: portanto, tudo o que é meu é também vosso; portanto, sou eu quem vive em vós e vos impulsiona. Portanto, ide. E fazei outros discípulos convosco. Com que objetivo? Recrutar devotos, reforçar as fileiras? Não, mas por um contágio, uma epidemia de vida e de nascimentos.
E se eu também dissesse, de vez em quando, frases ilógicas, escritas segundo a sintaxe estranha do amor? Se eu dissesse: “este mês ganhei mais, portanto pagarei todas as dívidas”. Se eu dissesse: “hoje tenho tempo livre, portanto ficaremos na poltrona, eu e minha esposa, lendo um livro”. Então compreendo que o céu de Deus se encontra naquelas ilhas, naqueles oásis onde as pessoas falam a “língua sem gramática” do amor.
E as suas últimas palavras: estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo. Convosco, nunca sós.
Com a Ascensão, Jesus não foi para longe, para o alto ou para algum canto remoto do cosmos, mas tornou-se mais próximo. Se antes estava com os discípulos, agora estará dentro deles. Não foi para além das nuvens, mas para além das formas: “O Ressuscitado envolve as criaturas e orienta-as para um destino de plenitude. As próprias flores do campo que Ele contemplou com os seus olhos humanos, agora estão cheias da sua presença luminosa” (Laudato si', 100).
Quem sabe sentir e desfrutar deste mistério, caminha como que dentro de um tabernáculo, dentro de um batismo infinito.
Convosco todos os dias. Sem condições. Nos dias da fé e nos dias da dúvida; convosco até o fim dos tempos, sem vínculos nem cláusulas, como semente que germina, como o início de uma aurora de cura.
Enquanto esteve neste mundo, Jesus foi, para muitas pessoas, o céu na terra. Nós também somos chamados a sê-lo. O céu precisa “ser trazido” para a terra através de cada discípulo de Jesus, oferecendo presença a quem vive na solidão, palavras de conforto e de esperança a quem está abatido e desanimado, enxergando e valorizando aqueles que são “presença invisível” num mundo onde cada um está fechado em si mesmo... Rezemos, neste sentido, a oração de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.